Como conseguimos tratar a enurese noturna de um menino de 10 anos?
A mãe do pequeno Rafael me procurou. Ela estava buscando um tratamento de osteopatia para tratar a enurese noturna de seu filho de 10 anos. Patrícia, uma mãe muito amorosa, do nosso Rafael, um menino extremamente extrovertido e alegre. Patrícia, além dele, ainda tinha mais três filhos. Imagino como para ela era difícil ter que lavar os lençóis todos os dias devido ao xixi na cama, todas as noites.
Ela me procurou pois tinha ouvido falar que uma outra criança tinha sido tratada da enurese noturna com técnicas da osteopatia. Confesso que fiquei com receio de atender o pequeno, pois apesar de já trabalhar com osteopatia e fisioterapia pélvica, eu nunca tinha atendido um caso de enurese noturna. Não tinha ouvido falar da enurese nos livros de osteopatia. E os estudos científicos diziam que o melhor tratamento comprovado cientificamente para a enurese noturna eram os alarmes.
Observação importante:
Os alarmes são equipamentos que tocam quando a roupa da criança se molha com o xixi, fazendo com que ela acorde com o barulho. Ao acordar, a criança vai ao banheiro. O alarme funciona como um mecanismo para que o cérebro da criança comece a conectar a sensação da bexiga cheia a uma resposta consciente, mediada pelo sistema nervoso central.
Cheia de incertezas sobre se eu poderia realmente ajudar o nosso pequeno Rafael, pedi para fazer uma avaliação.
Avaliação clínica
Na avaliação do Rafael, percebi que ele apresentava uma alteração postural. Ele se desequilibrava com facilidade e também apresentava pouco tônus muscular.
(Parêntese importante: nossas crianças de hoje em dia, que não têm acesso a brincar na rua e ficam mais dentro de casa, acabam desenvolvendo músculos mais fracos e pouco alongamento. Esse contexto vai te ajudar a entender o final dessa história.)
Voltando. Observei três pontos principais:
- Alteração postural
- Pouca massa muscular
- Grande tensão na região abdominal.
Na palpação das vísceras, percebi uma grande tensão na região do intestino e da bexiga. Essa tensão alterava a postura do Rafael. O centro de gravidade dele estava mais para a frente, como se a tensão do intestino e da bexiga puxassem o corpo do garoto para frente.

Conversei com a Patrícia sobre como foram os 10 anos de vida do Rafael. Ela não relatou queixas emocionais relevantes. Ele é um menino extremamente doce, alegre e agradável, não apresenta timidez e nunca teve trauma. Porém, por algum motivo, ele não tinha capacidade de sentir a bexiga cheia à noite.
Hipótese terapêutica
Percebi que a osteopatia poderia ajudar a melhorar a postura do Rafael. Ofereci à mãe um pacote de oito sessões para iniciarmos o tratamento.
Minha hipótese era que a grande tensão na região abdominal estivesse pressionando a bexiga e alterando sua sensibilidade. Em outras palavras, imaginei que o Rafael pudesse estar com a interocepção alterada.
Interocepção, segundo Antônio Damasio, é a capacidade de sentir os próprios órgãos internos — neste caso, sentir a bexiga cheia.
A mãe compreendeu meu raciocínio e iniciamos o tratamento.
Tratamento realizado
Durante as sessões, utilizei técnicas manuais de osteopatia para liberar as fáscias do intestino, da bexiga e também dos músculos do assoalho pélvico, que estavam muito tensos e rígidos — algo incomum para uma criança de 10 anos.
Os músculos do assoalho pélvico têm grande relação anatômica com a bexiga. Durante o tratamento, o osteopata “lê” o corpo, e o próprio corpo mostra as regiões mais rígidas que precisam ser liberadas para que funcione melhor.
No entanto, não quis que o tratamento fosse apenas passivo. Então recomendei que o Rafael utilizasse o alarme de enurese durante a noite, para ser acordado ao fazer xixi na cama. A mãe tentou comprar o alarme no Brasil, sem sucesso, e depois realizou a compra pela Amazon.
Além disso, utilizamos eletroestimulação da fisioterapia pélvica, orientando a mãe a aplicar o recurso em casa duas vezes ao dia — de manhã e à noite, antes de dormir.
Os eletrodos foram posicionados:
- um no osso sacro (onde saem os nervos que inervam a bexiga),
- outro acima do púbis.
A intenção era aumentar a percepção da bexiga, reforçando a interocepção — ou seja, fazer o Rafael começar a sentir a bexiga se enchendo.
Resultados até o momento
Ainda não finalizamos o tratamento, mas já observamos resultados importantes.
Hoje, Rafael:
- em algumas noites acorda sem ter feito xixi na cama;
- em outras, acorda ao perceber que fez xixi;
- antes, ele permanecia molhado a noite inteira sem perceber.
O mais importante é que ele passou a sentir a bexiga se encher. Ele acorda para ir ao banheiro ou acorda percebendo que está molhado. Na maioria das noites, ele acorda seco — e feliz por isso.
O alarme é o único tratamento recomendado pela literatura científica para a enurese noturna e será utilizado assim que chegar.

Conclusão
Embora o tratamento utilizado não seja o recomendado pela ciência para a enurese noturna, já estamos observando resultados. Acredito que o que mais ajudou o Rafael foi restaurar a capacidade de sentir a bexiga.
Tanto a eletroestimulação quanto as técnicas manuais da osteopatia informam o cérebro sobre a posição e o estado da bexiga. Quando o terapeuta toca a bexiga e o intestino, envia informações sensoriais ao sistema nervoso central.
Lendo Antônio Damasio, aprendi que podemos ensinar o cérebro a sentir o corpo e as vísceras novamente.
Não sou cientista. Sou fisioterapeuta, acredito na ciência, na experiência clínica e no poder transformador do conhecimento em neurociência.
Quis relatar essa experiência porque ela pode ajudar outras pessoas que buscam alternativas para tratar a enurese noturna.
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