Como o estresse na gravidez pode afetar o corpo do bebê

E como a osteopatia pode ajudar mãe e filho a se regularem no pós-parto.

Quando o corpo aprende o estresse antes mesmo de nascer

Durante a gravidez, especialmente no primeiro trimestre, o corpo do bebê é extremamente sensível ao que acontece no corpo da mãe. Emoções, hormônios e estados internos atravessam a placenta. Entre eles, o cortisol, conhecido como hormônio do estresse.

Quando a mãe vive períodos prolongados de estresse, ansiedade ou tristeza profunda, níveis elevados de cortisol alcançam o bebê em formação. O crescimento fetal, nesse momento, é altamente sensível a esses estímulos. O resultado é que o sistema nervoso do bebê pode “aprender” desde cedo a funcionar em estado de alerta.

O estresse pré-natal não se limita à gestação. Ele pode predispor o futuro adulto a dificuldades de adaptação ao estresse, alterações hormonais e maior vulnerabilidade a doenças ao longo da vida.

Bebês que já nascem cansados de se adaptar

Observa-se que algumas crianças nascem com uma capacidade reduzida de adaptação ao estresse. Em muitos casos, apresentam glândulas adrenais mais frágeis,seja por hereditariedade, seja como consequência do ambiente intrauterino.

Estudos apontam também uma diminuição da neuroplasticidade cerebral. Amiel-Tison (2009) demonstrou que o estresse perinatal ou pós-natal crônico pode levar a uma desregulação hormonal permanente, com possíveis danos ao hipocampo e consequências adversas a longo prazo.

Outros pesquisadores, como Fagundes, relacionam o estresse intrauterino ao surgimento posterior de doenças crônicas, doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. Além disso, fatores como conflitos familiares, negligência emocional e dificuldades socioeconômicas intensificam esse cenário.

O corpo guarda histórias que a mente ainda não consegue contar.

O olhar osteopático: cuidar da mãe é cuidar do bebê

Do ponto de vista osteopático, é essencial olhar para a saúde da mãe antes, durante e após a gestação. No pós-parto, o objetivo é minimizar os efeitos do estresse nos sistemas músculo-esquelético, neuroendócrino e imunológico.

Cuidar da mãe é criar um ambiente mais seguro para o bebê. Por isso, quanto mais cedo o tratamento é iniciado, maiores são as possibilidades de regulação do organismo.

O bebê também deve ser avaliado precocemente, para aliviar possíveis tensões do parto e os efeitos do estresse materno sobre um sistema nervoso ainda imaturo.

Interocepção: aprender a sentir o corpo novamente

A neurociência nos oferece um conceito fundamental para entender esse processo: interocepção.

Interocepção é a capacidade do cérebro de perceber os estados internos do corpo — batimentos cardíacos, respiração, tensão visceral, conforto, desconforto e segurança. Segundo António Damásio, é a partir dessas sensações que construímos nossas emoções e nossa autorregulação.

Quando uma mãe vive estresse intenso durante a gravidez, sua interocepção pode ficar alterada. O corpo permanece em alerta, com dificuldade de relaxar. O mesmo pode acontecer com o bebê, que passa a perceber o mundo como um lugar inseguro, mesmo sem palavras para explicar isso.

Como o toque terapêutico da osteopatia atua na interocepção

O toque osteopático não é apenas mecânico. Ele é um diálogo silencioso entre as mãos do terapeuta e o sistema nervoso do paciente.

Por meio de técnicas suaves, aplicadas na direção da facilidade do movimento e respeitando os tecidos, o osteopata estimula o sistema nervoso a sair do modo de alerta e entrar em estado de regulação.

Ao tocar fáscias, vísceras, diafragma, sacro e crânio, informações sensoriais profundas são enviadas ao cérebro. Essas informações ajudam o cérebro a reconstruir o mapa do corpo, melhorando a interocepção.

Utilizam-se também técnicas fluidodinâmicas e energéticas, com o objetivo de melhorar a circulação do sangue, do líquor e da linfa, favorecendo um ambiente interno mais seguro.

No bebê, esse toque cuidadoso auxilia o sistema nervoso a organizar suas respostas. Na mãe, ajuda o corpo a lembrar como é sentir segurança por dentro.

Mais do que tratar sintomas, restaurar a sensação de segurança

A osteopatia, associada ao conhecimento em neurociência e interocepção, não se limita a tratar sintomas isolados. Ela busca ajudar mãe e bebê a reconstruírem uma relação mais segura com o próprio corpo.

Quando o corpo volta a sentir, ele pode se regular.
 E quando há regulação, há mais saúde.

Referências Bibliográficas

1. Démarche clinique en neurologie du développement

Autores: Catherine Amiel-Tison & Jean Gosselin
 Edição: Masson; 2008

Links:

2. Axe cerveau-intestin-pelvis et ostéopathie: Approche intégrative du stress, de l’anxiété et de la dépression

Autora: Nathalie Camirand
 Edição: 2019 (ou data mais recente disponível)

Links:

3. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano

Autor: António Damásio
 Edição: Companhia das Letras; diversas edições disponíveis

Link:

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Foto de Ariani Baggio

Ariani Baggio

Fisioterapeuta osteopata com mais de 20 anos de experiência em terapias manuais.

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Ariane Baggio

Fisioterapeuta osteopata com mais de 20 anos de experiência em terapias manuais.

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