O peso da vida e a dor lombar persistente
A dor crônica raramente é apenas um problema do corpo. Ela carrega histórias, contextos, responsabilidades e emoções. Hoje, compartilho um caso clínico que ilustra como o peso da vida pode se expressar como dor física.
O caso de uma paciente com dor lombar crônica
Nossa paciente é uma mulher de 55 anos.
Ela é a base da família.
Cuida da neta, ajuda a mãe idosa, preocupa-se constantemente com a filha que enfrenta problemas psicológicos. Além disso, trabalha para garantir o sustento da casa, atuando no ramo de confecções. Sua rotina é intensa e contínua, sem pausas reais para descanso.
Quando chegou ao consultório, buscava tratamento para dor lombar, mas já avisava, com certo desânimo, que havia passado por inúmeros tratamentos sem sucesso.
Relatava dores muito fortes ao acordar, que permaneciam ao longo do dia, diminuindo apenas um pouco com o passar das horas.
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Uma rotina que não permite parar
Além do trabalho e dos cuidados com a casa, sua rotina incluía:
- cuidar da neta, que possui transtorno do espectro autista e precisa de terapias frequentes;
- auxiliar a mãe idosa;
- lidar com preocupações emocionais constantes relacionadas à família.
Essa paciente convive com dor há mais de um ano. Portanto, estamos falando de dor crônica.
O que essa paciente sente em relação à dor
Durante a conversa, ela expressou sentimentos muito comuns em pessoas com dor crônica:
- Acredita que a dor é terrível e talvez nunca melhore
- Relata ter deixado de gostar de atividades que antes lhe davam prazer
- Fica preocupada por longos períodos por causa da dor
- Acredita que exercício físico não é adequado para alguém “com o problema dela”
- Percebe que a dor está se espalhando: da lombar para o quadril e o joelho
Esses pensamentos não são fraqueza. Eles fazem parte do processo da dor crônica.
O que a ciência diz sobre dor crônica
A ciência já sabe que dor crônica é um contexto, não apenas uma lesão.
Fatores como:
- ambiente familiar,
- problemas financeiros,
- dificuldades emocionais,
- estresse no trabalho,
- frustrações acumuladas,
influenciam diretamente a forma como o sistema nervoso percebe a dor.
Quando a pessoa vive constantemente sob pressão, com a sensação de que precisa “dar conta de tudo”, o sistema nervoso entra em estado de alerta contínuo. A dor passa a ser interpretada como uma ameaça.
E um sistema nervoso que se sente ameaçado não consegue relaxar.
Quando vários tratamentos falham
Outro ponto importante é o histórico de múltiplos tratamentos sem resultado.
Passar por vários profissionais, exames e abordagens sem melhora aumenta ainda mais a sensação de ameaça. Surge o pensamento:
“Talvez não exista solução para mim.” Isso fortalece o ciclo da dor crônica, pois o cérebro aprende que aquela dor é perigosa, permanente e fora de controle.
Como podemos ajudar essa paciente?
O primeiro passo é educação em dor.
Quando a paciente entende que sua dor não surgiu apenas de um problema estrutural, mas de um conjunto de fatores — vida difícil, sobrecarga emocional, frustrações com tratamentos anteriores — a dor começa a perder o significado de ameaça.
A dor passa a ser compreendida como um sinal de alarme de um sistema nervoso que está hiperativado, e não como um dano irreversível.
Como a osteopatia trata dores ciáticas
O papel do cérebro e do sistema nervoso
Quando o cérebro entende que a dor pode ser compreendida e controlada racionalmente, a sensação de ameaça diminui.
Com isso:
- o sistema nervoso começa a se acalmar;
- os sinais de perigo enviados ao cérebro diminuem;
- inicia-se um processo de dessensibilização.
Nesse momento, o movimento volta a ser possível.
O tratamento: um cuidado em várias frentes
O plano terapêutico para essa paciente envolve:
- Educação em dor, para mudar a percepção de ameaça
- Exercícios fisioterapêuticos, para ensinar ao corpo que é seguro se movimentar
- Fortalecimento e consciência corporal, para melhorar a confiança no próprio corpo
- Exercícios respiratórios, ajudando a regular o sistema nervoso autônomo
- Terapia manual e osteopatia, que enviam informações de segurança e calma ao sistema nervoso
- Apoio psicológico, para lidar com o peso emocional da vida
- Acompanhamento médico, quando necessário, inclusive com medicação
O objetivo não é apenas tratar a dor, mas tratar a pessoa dentro do seu contexto de vida.
Dor crônica não é culpa do paciente
A vida dessa paciente, assim como a de tantas outras pessoas, é difícil. E a dor crônica não surge do nada.
Ela é construída aos poucos, em um sistema nervoso que precisou ficar forte, alerta e resistente por muito tempo.
Como profissionais da saúde, nosso papel é trabalhar juntos, de forma integrada, ajudando essas pessoas a reconstruírem a sensação de segurança no corpo e na vida.
Porque, aos poucos, quando o sistema nervoso se acalma, a dor também pode diminuir.