O que a clínica e a ciência mostram sobre uma abordagem suave, segura e eficaz
O que é o torcicolo congênito em bebês?
O torcicolo muscular congênito é uma condição relativamente comum nos primeiros meses de vida e se caracteriza por uma inclinação lateral da cabeça associada à rotação cervical contralateral.
Na maioria dos casos, está relacionado a alterações no músculo esternocleidomastoideo (ECM), mas evidências clínicas e científicas mostram que o problema raramente é apenas muscular.
Bebês com torcicolo congênito frequentemente apresentam:
- Preferência postural persistente
- Dificuldade de rotação cervical ativa
- Plagiocefalia posicional
- Assimetria facial
Alterações no desenvolvimento motor precoce.
Uma mudança importante no olhar clínico
Durante muitos anos, o tratamento do torcicolo foi centrado quase exclusivamente em alongamentos musculares passivos.
No entanto, na prática clínica — especialmente com bebês pequenos — esse tipo de abordagem pode gerar:
- Choro intenso
- Aumento do estresse
- Resistência ao toque
- Dificuldade de adesão dos pais ao tratamento
O estudo “Neural and visceral manipulation in infants with congenital muscular torticollis: a feasibility study” propõe um caminho diferente e clinicamente muito relevante.
O que esse estudo avaliou?
O estudo acompanhou bebês de 0 a 12 meses, com média de idade aproximada de 4 meses, diagnosticados com torcicolo muscular congênito.
Muitos desses bebês apresentavam histórico clínico associado, como:
- Restrição intrauterina
- Apresentação pélvica
- Parto cesáreo
- Prematuridade
- Internação em UTI neonatal
- Refluxo gastroesofágico
- Irritabilidade e dificuldades de autorregulação
Ou seja, um perfil muito semelhante ao que vemos no consultório.
Avaliação clínica: como a mobilidade cervical foi medida
A avaliação da mobilidade cervical foi feita por meio da mensuração da amplitude de movimento passiva e ativa, especialmente da flexão lateral cervical.

Legenda: Avaliação da flexão lateral cervical passiva (PROM) em bebês com torcicolo congênito, utilizada para monitorar a evolução clínica.
Essa avaliação permitiu acompanhar, de forma objetiva, as mudanças na mobilidade cervical ao longo das sessões.
O diferencial do tratamento: por onde o estudo começou
Ao contrário da abordagem tradicional, o protocolo não iniciou pelo alongamento direto do músculo.
O tratamento foi estruturado em três pilares principais:
1️⃣ Manipulação neural em bebês com torcicolo
O estudo descreve a presença frequente de restrições no sistema nervoso periférico e autonômico, especialmente envolvendo:
- Nervos cervicais
- Nervo acessório (relacionado diretamente ao ECM)
- Nervo vago
Essas restrições podem manter o bebê em um estado de hiperalerta neurológico, dificultando o relaxamento muscular e a adaptação postural.
Clinicamente, as técnicas neurais foram:
- Extremamente suaves
- Adaptadas à resposta do bebê
- Interrompidas imediatamente se houvesse sinais de desconforto
📌 Achado clínico importante do estudo:
Os bebês toleraram muito bem a manipulação neural, apresentando menos sinais de estresse do que durante avaliações passivas tradicionais.
2️⃣ Manipulação visceral: um aspecto pouco discutido, mas essencial
Outro ponto central do estudo foi a manipulação visceral, especialmente em bebês com histórico de restrição intrauterina.
Órgãos do:
- Pescoço
- Tórax
- Abdômen
podem perder mobilidade relativa durante a gestação, influenciando diretamente:
- A postura cervical
- A organização fascial
- O padrão respiratório
- O equilíbrio do sistema nervoso autônomo
Na prática clínica, a liberação visceral frequentemente resulta em:
- Redução da tensão cervical
- Melhora da rotação da cabeça
- Bebê mais calmo e regulado
3️⃣ O músculo esternocleidomastoideo vem depois
Somente após a melhora da mobilidade neural e visceral, o músculo ECM foi abordado — sem alongamentos forçados.

Quantas sessões foram realizadas?
- 8 sessões
- Duração entre 30 e 50 minutos
- Distribuídas ao longo de algumas semanas
- Sem exercícios domiciliares forçados
- Sem alongamentos passivos impostos aos pais
Esse dado é muito relevante para famílias que se sentem inseguras em realizar manobras em casa.
Resultados clínicos observados

Legenda: Comparação clínica da mobilidade cervical antes e após sessões de manipulação neural e visceral.
Mesmo com uma abordagem suave, os resultados foram consistentes:
- ✔️ Melhora significativa da rotação cervical ativa e passiva
- ✔️ Melhora da flexão lateral cervical
- ✔️ Manutenção dos ganhos após 4 meses
- ✔️ Desenvolvimento motor adequado para a idade
- ✔️ Melhora nos aspectos socioemocionais
📌 Um dado extremamente importante:
Não foram observados sinais de dor, choro excessivo ou estresse durante as sessões.
O que esse estudo ensina aos pais?
Este estudo reforça algo fundamental na osteopatia pediátrica:
👉 O corpo do bebê responde melhor quando se sente seguro.
Nem todo tratamento eficaz precisa ser desconfortável.
Especialmente nos primeiros meses de vida, o sistema nervoso precisa ser considerado parte central do processo terapêutico.
Limitações do estudo (e por que ele ainda é relevante)
Sim, o estudo apresenta limitações:
- Número reduzido de participantes
- Ausência de grupo controle
- Protocolo fixo de sessões
Mas, ainda assim, ele é extremamente valioso porque:
- Demonstra viabilidade clínica
- Mostra segurança da abordagem
- Abre espaço para tratamentos menos invasivos
- Dialoga diretamente com o que vemos na prática clínica
Considerações finais
O torcicolo congênito em bebês pode — e deve — ser tratado precocemente.
Mas o caminho até a melhora não precisa passar pelo sofrimento do bebê.
A osteopatia pediátrica, com foco em manipulação neural e visceral, oferece uma abordagem:
- Global
- Respeitosa
- Baseada em evidência
- Alinhada ao desenvolvimento infantil
Referência científica
Original Article
Neural and visceral manipulation in infants with congenital muscular torticollis: a feasibility study
Leia o estudo original:
“Neural and visceral manipulation in infants with congenital muscular torticollis: a feasibility study” — disponível em acesso aberto no Journal of Physical Therapy Science e no PubMed Central:
• Acesse o PDF completo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7008025/
• Veja no site da revista: https://www.jstage.jst.go.jp/article/jpts/32/1/32_jpts-2019-155/_article/-char/en